domingo, 13 de setembro de 2015

Reflexões - O Alheio.

A única coisa que você precisa saber para não usufruir de uma coisa que não é sua, é saber que isso não é seu.

Saber quem é o dono, é só um detalhe, que não deverá ir além de uma simples curiosidade, sem te dar o mais mínimo direito de dispor sobre aquilo que não te pertence.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Garoto de Programa

Quando cheguei ao Brasil há alguns anos, eu era bastante jovem, inexperiente, menos vivido do que sou hoje e passei por algumas experiências inesquecíveis, por vezes engraçadas, como a que contarei a seguir, mas que me deixaram com a cabeça cheia de minhocas durante um bom tempo.

A empresa que me contratou me orientou a procurar um lugar para morar numa região nobre da cidade, visando a minha segurança e conforto.

O colega que veio comigo na “missão” e eu, alugamos um apartamento num bairro muito bom de Belo Horizonte, tranquilo, calmo, de bom nível, onde todas ou a maioria das pessoas se movimentavam em condução própria, mas nós, simples engenheiros que estaríamos supostamente por aqui durante um período consideravelmente curto e sem recursos para adquirir carro, fazíamos todas as nossas viagens usando o transporte público.

Aquelas ruas do bairro, que durante o dia esbanjavam calmaria, à noite se transvestiam. Eram bem escuras, solitárias e o lugar idôneo para se aglomerarem muitos travestis e seus múltiplos clientes.

Antes da minha vinda a este país, ainda que já tivesse visitado outros países, nunca fiquei próximo de nenhum travesti. Sinceramente, não tinha uma noção certa do que eram. No meu país no existiam.

Também, nunca tive aproximação nem contato com prostituição de rua. Era outra coisa que no meu país de origem, não era usual, para não dizer que não existia.

Sempre que voltava a noite para casa, procurava faze-lo de táxi, porque eram frequentes os assaltos noturnos e não pretendia me relacionar ou misturar com aquelas pessoas, naquele ambiente, que sem o intuito de criticar, estava com a certeza de que nada tinha a ver com os meus interesses e o meu estilo de vida.

Um dia, quando já estava começando a escurecer, eu voltava para casa. Estava vindo de ônibus e o mesmo me deixava a pouco mais de dois quarteirões de casa e percebi que uma daquelas meninas, estava fazendo xixi na rua, em pé e com um “membro” masculino para fora. Só sei que fiquei surpreso. Se houve algum outro sentimento paralelo como raiva, medo, constrangimento, não saberia dizer. Apressei a marcha e me enfiei dentro do meu apartamento.

Mais tarde comentei com o meu colega na residência, que por sinal era um senhor mais velho e queria saber o que ele achava daquilo tudo. Ele, com muita naturalidade me disse que já sabia que eram homens vestidos de mulheres e que se dedicavam a se prostituir com outros homens, que tinham fantasia por um gênero inexistente, complexo e integrado, por denominar de alguma maneira.

Falou ademais que já tinha conversado com alguns deles e que eram bacanas.

Eu não questionei suas observações, por respeito aos anos e a opinião alheia, mas o tempo encarregou-se de corroborar as minhas suspeitas sobre a qualidade humana das pessoas que ele catalogava de legais, sem querer ser absolutista, generalizando e dizendo que todo travesti é uma má pessoa.

Dias depois, quando cheguei a casa e sem ser ainda muito tarde, estava só começando a escurecer, encontro meu colega em casa, assustado, acuado, tremendo e ao perguntar o que tinha acontecido me informou que um daqueles sujeitos legais, junto com outro cara vestido de homem o “abordaram”, machucaram e tiraram todo o dinheiro dele.

A partir daquele dia, tomou a decisão, provavelmente sábia para ele, de não conversar com estranhos na rua e sair só com o dinheiro necessário para as atividades fundamentais.

Uma semana depois, foi novamente atacado e ingenuamente debochou na cara de assaltante que não tinha dinheiro e que dessa vez não se aproveitaria dele. Aquela atitude foi funesta. Ele apanhou muito e ameaçaram que se da próxima vez não levasse dinheiro, iriam feri-lo mais.

O senhor que morava e trabalhava comigo entrou em pânico e me implorou para começarmos a procurar outro lugar para morar. Duas semanas depois já estávamos instalados em outro apartamento, na região central da cidade.

Mas antes da retirada, uma tarde, quase noite, estava passando por aquelas ruas para poder chegar a casa quando um daqueles cidadãos me propõe: “E ai, bonitão, quer fazer um programa”?

Aquela proposta deixou-me paralisado, dentre outros motivos, porque não me acho bonitão e também porque nunca na minha vida, alguém com voz grossa e confusa ao mesmo tempo, teria-me abordado desse jeito. Só atinei a acelerar o passo e abrir o portão de acesso ao prédio.

Na época, eu tinha pouco domínio da língua portuguesa e praticamente nenhum das gírias.

Eu sou engenheiro de automação e a minha atividade fundamental naqueles tempos era programar. 

Daí, eu fiquei grilado pensando que aqueles travestis tinham indagado sobre mim e sabiam que eu fazia programas e por esse motivo pediu-me para fazer um programa, querendo puxar papo e entrar em confiança.

Durante vários dias me mantive preocupado e me perguntando, como eles souberam sobre mim. Até fiquei de mal com o síndico, pensando que era fofoqueiro e tinha passado as informações para alguém. Passados alguns dias comentei com um colega da firma, que era mais próximo da gente e subitamente começou rir.

Ele me explicou que na fala popular, a expressão fazer programa, distava muito do que eu fazia e me passou o significado exato e a intenção da proposta.

Fiquei mais calmo.

Depois soube que eu era um garoto de programa, mas ao mesmo tempo não era um “garoto de programa”.

Sempre que conto essa história para as pessoas e depois de terem passado tantos anos, sinto um arrepio lembrando o desconforto daqueles dias e a vergonha pelo meu desconhecimento.

Hoje, numa nova fase dentro da engenharia, como resultado da experiência acumulada e do perfil da vaga que ocupo, não costumo programar, mas ocupo parte do meu tempo em ensinar a programar a especialistas mais jovens.

Em tom de brincadeira, alguém (o amigo VP) me disse que eu não era mais um garoto de programa, senão um aliciador, um cafetão da vida.

Por cima disso, tenho que rir.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Gonzaguinha. Guerreiro.

Estava escutando esta música do Gonzaguinha na peculiar interpretação do Fagner e fiquei muito triste.

"Um homem se humilha
Se castram seus sonhos
Seu sonho é sua vida
E vida é trabalho.


E sem o seu trabalho
O homem não tem honra
E sem a sua honra
Se morre, se mata.
Não dá pra ser feliz
Não dá pra ser feliz"
Conheço muitos homens e mulheres em situações similares.

Sei desse sofrimento.

Gonzaguinha, quem diria, que transcorridos tantos anos, tua música teria tão cruel vigência.

Depois de tantas promessas, talvez eleitoreiras e de perpetuação no poder, de uma infinidade de números e índices de progresso econômico-social que ninguém consegue conferir e que não são mais que dados sem sugerir informação alguma, de várias conquistas, mas com pouca ou duvidosa sustentabilidade, o quê restou?

Após reiteradas grandes palavras, de milhões de miseráveis saindo da pobreza, provavelmente material, porque de espírito poucos saíram, sem sabermos quantos milhões voltarão e quantos outros a enfrentarão pela primeira vez.

Depois de tantas esperanças que desembocaram em megaroubos e megacorrupção, não sei como empreenderemos o caminho ascendente.

Cair é muito fácil e rápido.

Subir é difícil, dolorido e nem sempre se consegue chegar, pese a que só o cume possa interessar.

A dizer verdade, eu não albergava esperanças.

Seria muito pueril e ingênuo da minha parte, saindo de onde eu sai, passando por onde eu passei e vivendo como eu vivi, acreditar em semelhantes projetos de sucessivas, dolorosas e sofridas quedas livres com destino certo, seguro e previsível: O Tudo do Nada.

Este Guerreiro que está aqui, não é de chorar e chorou.

Que Deus nos livre e Guarde!

"Eu vejo que ele sangra
Eu vejo que ele berra
A dor que tem no peito
Pois ama e ama"


Sim, ama os seus filhos, seus pais, sua esposa, ama a si mesmo e não pode ajudar a viver a ninguém.

Mas mesmo assim, o compositor Alberto Tosca me ensinou que não cabe desesperança, o imenso está por vir. Não cabe desesperança, pois já não vou esperar a que alguém traga para mim a vida, porque sairei a busca-la.

Continuamos na luta. Construiremos uma sociedade melhor. Um país de pessoas mais cientes da responsabilidade cidadã e cívica que corresponde a cada um.

Tempos melhores virão!

segunda-feira, 29 de junho de 2015

DISCUSSÃO

Numa reunião de trabalho, entre empresas, clientes e fornecedores, onde as coisas não transcorriam tão tranquilamente e onde os ânimos estavam um pouco ou até bastante alterados, eu senti necessidade de amenizar o ambiente, porque estava muito pesado.

Um dos chefes presentes de súbito perdeu a compostura e pouco faltou para balbuciar algum palavrão.

Tudo ficou em silêncio, mas eu não consegui me conter e comentei em voz entre alta e meio alta, como quem quer falar consigo mesmo, mas ...: “e eu pensei que estavam extintas”

Ele escutou e perguntou num tom menos exaltado, mas preocupado: O quê você disse? O quê isso significa?

Eu gelei, mas tinha que ir em frente e tentar surtir o efeito esperado de zoação, para aliviar as tensões.

Ai, eu falei: “O problema é que tu ficou feito uma arara, e não é uma arara qualquer, senão uma arara azul. Parece que o espírito de uma arara azul baixou em você. As pessoas acham que elas estão extintas e você demonstrou para  a gente, que não é bem assim”.

Todos riram ... até ele.

Graças a Deus, senão ia sobrar para mim também.

É uma daquelas ações espontâneas, que a gente faz sem pensar.


Vou tentar me controlar para a próxima. Quem sabe também ele aprenda a se controlar, para evitar os engraçadinhos de plantão e constatar que só fez o ridículo com aquela gritalhada toda.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Tropeçando

Está me perguntando se lembro de você?

É lógico! Te conheço bem!

Cheia das fantasias.

Criativa.

Malandrona!

Sempre pronta para o crime.

Como se esquecer de você?, se foi o mais parecido comigo que encontrei andando por esta vida.

Sempre de galho em galho.

Pulando que nem cabrito.

Procurando sua cara-metade, sua meia laranja?

Quem disse!

Eu não perdi nada e por cima, nem gosto de cítricos.

Num galho qualquer, encontrar uma folha, para mim está de bom tamanho.

E você foi isso, uma boa folha. Em outras palavras, fomos isso, duas folhas que se encontraram, ficaram juntas até que o vento as separou e cada uma seguiu o seu caminho.

Quê foi da tua vida?

Deve ter sido alguma coisa bem parecida com a minha.

Uma sequencia infinita de momentos bons e outros nem tanto.

O que será?

O mesmo, uma sequencia, talvez não tão infinita de momentos bons e outros nem tanto.

Encontrei várias pessoas.

Lembra daquilo que sempre a gente dizia depois das safadezas: lavou, tá novo!

É assim, hoje sujou, mas tarde lavou e sempre pronto para o dia seguinte.

Às vezes não é o dia seguinte, passa uma semana, duas ou até se chega a perder a conta, mas sempre é bom.


E ai? Tá afim?

O FIM.


Chegamos até aqui.
Chegamos longe é?
Só se fosse na tua percepção mediana de ver as coisas.
Chegamos a lugar nenhum! Estaca zero.
Do passado, nem me lembro bem. Eu vivo o presente, sonho com o futuro.
O passado é tão pobre na minha memória, que nem lembro o por que entrei nessa roubada de querer brincar de te amar. Eu mesmo nem sei exatamente, que nome teve aquilo que vivemos, ou que talvez, só eu vivi.
Hoje entendo que foi mais um fruto da minha imaginação, do meu desejo, da minha vontade de progredir em algo, que nem eu mesmo sabia o que era.
Desculpa pelo de percepção mediana.
Não é agora o momento de apelidar as coisas. Aliás, esse momento não existe, não há. 
Os fatos aconteceram e pronto!
Quê como me sinto? Quê que é o que sinto agora? Você pergunta?
Sinto tanto e sinto nada.
Quero muito é sumir daqui, mas não sumir para a vida, quero viver e vou viver muito.
Do meu jeito, como eu queira.
Dedicação total a mim.
O pior que fiz, foi perder a minha individualidade, que você tanto confundia propositalmente  com individualismo, quando você, sem dúvida alguma é o ser mais egoísta e ambicioso que tive mais próximo, a criatura mais destrutiva que conheci.
E não foi agora que entendi isso, não.
Mas é agora que tive a coragem de cuidar de mim, de me proteger.
Não vou cometer a hipocrisia de te desejar felicidade e sucesso.
Não. Não te desejo nada.
E é só por isso, porque a partir de hoje, você virou nada!